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Personas da arte tocantinense - Almecides

25/03/2013 17h20 | Atualizado em: 25/03/2013 18h37

Alcemides


Para entender a arte tocantinense, é preciso, antes de tudo, conhecer os principais nomes que representam a cultura estadual. 

Pensando nisso, a ArTO dá início nesta semana a uma série de entrevistas com artistas que fazem do Tocantins uma referência no cenário artístico nacional. 

O primeiro entrevistado da coluna é Almecides Pereira de Andrade, considerado um dos mais experientes e completos artistas do estado. 


Nascido em Babaçulândia, Almecides é poeta, escritor, contista, ensaísta, dramaturgo, pintor, escultor (com trabalhos na França, Itália, Bélgica, Turquia e Estados Unidos). Graduado em Ciências Econômicas e Pedagogia, Pós-graduado em Língua Portuguesa e em História com especialização em Patrimônio – Memória e Identidade, o tocantinense é membro da AVISTO (Associação dos Artistas Visuais do Tocantins) e da ACALANTO (Academia de Letras de Araguaína e Norte Tocantinense), tendo participado de diversos eventos em todas as áreas da cultura.

Além disso, Alcemides participou do trabalho histórico das Frisas do Palácio Araguaia, com modelagem na parte “fauna e flora”. Desde 1997, trabalha com literatura, como Secretário Executivo da ATL (Academia Tocantinense de Letras). É o atual Coordenador de Literatura da Secretaria de Estado da Cultura e Fundação Cultural do Tocantins.


//Quando você ingressou no mundo da arte e quais foram os seus primeiros passos?

Almecides: Foi com a mudança do sistema de 64 (Militar), quando implantaram na educação, cursos profissionalizantes, e também, a entrada da matéria “trabalhos manuais” na grade curricular escolar do país. Pois bem, a noção do que vinha ser era mostrado e os trabalhos eram propostos e exigidos aos alunos. Isso me favoreceu muito, pois, o meu interesse pelos trabalhos manuais, chegou na hora certa. Ao término do Ginásio, já trabalhava com gesso e barro. Aprofundei conhecimentos técnicos com a matéria-prima, e já em Brasília, eu desenvolvi com o gesso, uma linha de trabalho escultural, não muito convencional: “Pinguins” em cores e poses diferentes do habitual. Daí não parou mais.

Quando cheguei a São Paulo em 1972, o trabalho continuou, mas, já em teatro, com esculturas cenográficas em gesso e juta, foi uma boa fase, mas o que eu queria mesmo era atuar também no tablado. Daí foi à surpresa, tudo estava ao meu redor o que precisava meso era só a vontade de crescer.

De 1975 a 1981, período universitário, tive a sorte de bons trabalhos cênicos, dirigidos por excelentes profissionais como: Armando Sérgio Campos, Coordenador da EAD- Escola de Arte Dramática – USP São Paulo; Armando Sérgio Azzari, Diretor e Dramaturgo Latino Americano; Myrian Muniz, a máquina de fazer o verdadeiro ator em todos os sentidos; Augusto Boal, com ensaios experimentais, com o teatro do oprimido/opressor; Paulo Beti, o último dos que trabalhei um período de quatro anos, quando deixei o grupo para assumir um trabalho solo. Trabalhei numa pesquisa e recebi a graça de encontrar dois bons textos em tão pouco tempo. Definimos o melhor pra todos e partimos.

Produzimos, dirigimos e atuamos David Araújo e eu. Amigos desde Araguaína. Ele fazia jornalismo na USP-SP e também, já tínhamos trabalhado juntos em outros grupos. Ganhamos na época, um bom dinheiro e foi aí que resolvi ir mais longe, indo para a Europa logo que terminou a temporada desse espetáculo em 81.

Chegando a Europa, trabalhei na iluminação de um espetáculo elaborado e dirigido por Michelle Venar, atriz francesa, diretora e produtora de teatro em Paris, com um espetáculo cognominado (Un homme veritablement sens calité) “Um homem verdadeiramente sem qualidade”. Fragmentos dos sonhos de Frans Kafka, dramaturgo Polonês. Depois em 1982, trabalhei com a mesma Michelle, já como ator em uma produção “criação coletiva” e resulta (Le Roi de la Patagonie) ” O Rei da Patagônia”.

Deixei o trabalho cênico e voltei, à escultura, também cênica e não parou por um bom tempo, onde percorri muitos países da Europa deixando o trabalho plástico de bom gosto por onde pude passar. Bruxelas, Strasburg, dois países que bem apreciaram o meu trabalho. A Turquia, Centro África, Itália, Japão e Miami têm trabalhos feitos por mim e muito mesmo em Paris. São Paulo, Brasília, Goiânia, Rio de Janeiro e Palmas, são lugares que acompanhei a rota de despachos desses trabalhos aqui no Brasil.

//Com quem começou a fazer teatro? E quem hoje chama ou chamaria de grande mestre?

Almecides: Comecei meus primeiros contatos com o teatro na Escola Paroquial de Araguaína, depois, no Ginásio Santa Cruz, com o Padre Remígio Corazza, o primeiro a me mostrar a intenção do trabalho cênico. A partir daí, em São Paulo, vieram Vitor Vilitelle, Augusto Boal, Armando Sérgio Campos e Azzari, myrian Muniz, Paulo Beti, Iza Copelman e tantos outros maravilhosos astros. Trabalho onde cada um tem suas particularidades. E nessa não deixaria de mencionar os valores e talentos com suas partículas de sabedoria ao ministrarem oficinas, as quais fiz e com quem muito aprendi: Myrian Muniz, a grande atriz do cinema brasileiro, conhecida de “Rainha do deboche” da EAD - USP; Augusto Boal, o humano quebra nozes do teatro no mundo. Visão mágica no espaço cênico, ocupada com o racional e a busca do envolvimento da linguagem; Paulo Beti, homem que figura entre os grandes atores do país e como diretor, não tenho dúvidas do excelente trabalho que conheci trabalhando com ele. Formado pela EAD – USP-SP e trabalhei um dos melhores textos que foi a “Lata de Lixo da História”, por ter sido uma época oportuna para ser mostrado o trabalho de todos que por esse grupo passou. A bagagem passada por esses monstros do teatro, só enriqueceu o potencial desses trabalhadores das artes cênicas geral.

Depois que se tem a vivência e trabalhado com esses pais/mães/mestres, tudo aflora na hora certa, no momento certo. Parece até que já está ensaiado, construído, que tudo que vem certo ou errado, já não assombra em nada. Mas, já houve passagens tanto no mundo cênico como nas plásticas. A exemplo, contarei uma delas: 

Fiz uma exposição de esculturas cênicas, uma vez e misturei o mito, sem saber que o era, apenas por não ter outra opção. Explico: houve pane elétrica e queimou toda a iluminação das peças, meia hora antes da abertura e Vernissage. O que fiz: comprei velas de várias cores, condizentes a uma das esculturas expostas e por estar à mostra também, o poema que gerou a peça. (Antes disso, um fotógrafo tinha ido ao meu ateliê e eu estava finalizando alguns retoques para serem levadas às embalagens, fez-me algumas fotos e foi embora. Chegou ele no dia seguinte com os convites, dizendo que já havia autorizado a distribuição, com apoio, patrocínio e tudo de direito. Só que no Convite, estava eu sendo mostrado sentado de frente para o espelho, onde a foto feita em minhas costas e à minha frente refletia no espelho). Pois bem: Ao acender as velas, as outras peças ajudavam a repetir as imagens umas das outras e isso chamou muito a atenção. Vieram vários repórteres e perguntas; vieram os políticos e perguntas; e vieram os místicos e perguntas. Eu? Sem saber nada do que estava acontecendo. Apenas tinha feito o arranjo que não sentiu a falta da eletricidade. Mas, observando e aprendendo até o significado de cada cor de velas que até então, eu desconhecia. 

Os jornais no dia seguinte, também faziam os elogios e suas observações, questionaram, denominaram as artes. Enfim, o fluxo foi grande e bom. Decepção mesmo foi o efeito positivo da Arte, oposto aos maldosos que haviam forjado a pane e a intenção era não acontecer o que para mim foi um Senhor evento, um grande momento. Esse fato, responde talvez as duas últimas perguntas. Além desse, tantos outros causos que se tornam cotidianos, pois, tudo que é bem aproveitado, lapidado, polido e limpo é absorvido a todo consumidor. A arte, ela está e se encontra em todo lugar, em toda parte do mundo. Se junta o conhecimento adequando a situação da proposta de trabalho e lança o desfecho resultante.


//Quais eram os grupos artísticos da época e quais cidades participavam desse circuito artístico?

Almecides: Eu sou do tempo da Jovem Guarda e acompanhei toda uma transição com a música brasileira, romântica, até o primeiro qüinqüênio dos anos 60, mais a chegada das décadas trágico/novelóides, mais as andanças pelo mundo, extrai-se e carrega-se influências múltiplas, mesmo que no subconsciente. Eu diria mais conhecimentos, imbuídos da cognição aportada por cada um de nós que, sabendo em muitos, canalizar bem o enredo e a emoção, resultam muitos dos trabalhos bem originais em sua vida.

//Por quantos e quais grupos já participou? Quantos espetáculos escritos e quantos atuados? Quantas obras publicadas? Conte-nos um pouco de sua trajetória.

Grupos vários que passei, faziam-se muito free-lance em temporadas de espetáculos resultantes de oficinas com profissionais, pretendentes na formação e estudos com exercícios do ofício, então fazíamos o trabalho, depois se negociava os trabalhos seguintes. Bom mesmo foi o tempo do Grupo Objetivo – cursinho Pré-vestibular- 1974/75 Av. Paulista, 900. Com esse grupo trabalhamos muito o Coletivo em Criação, resultou em “Canto Chorado” e “Assembléia de Mulheres” na Direção: Chicão de Assis – Historiador, professor de História do Brasil Colonial e Dramaturgo; Depois, o Grupo Fed. Fac. Brás Cubas – Mogi das Cruzes – SP 1975/78; Grupo Fac. Católica, em Perdizes – SP Capital com o espetáculo “A Lata de Lixo da História”, que é “O Alienista” - Machado de Assis, levado ao tablado 1979/82.

A arte não tem hora, nem pressa para chegar. Algum trabalho se começa e vai escrevendo, esculpindo ou pintando aos poucos, devagar até chegar o fim. Outros vêm já quase prontos. Tenho escrito na parte cênica alguns trabalhos como: O. S.A.PO (monólogo), Memória de um au,au (monólogo), Bipolar diferente de loucura (monólogo), Zoí e Zuvido (diálogo) entre outros. Tenho um livro publicado – Nas Linhas do Horizonte, 2007; Achados Poéticos-Uma Antologia Poetas da ACALANTO - UFT; publicações esporádicas em revistas e jornais do país. Outras informações na obra de Mário Ribeiro Martins em Dicionário Biobibliográfico do Tocantins, p.919. Editora Kelps.

//Para você, quem foi (ou é) um grande nome da ARTE no Estado? (Cite nomes, histórias, trajetórias)

Almecides: Ainda está por vir ou ser visto com detalhes o que temos de “expressão destaque” que possa ser indicado. Primeiro, é bom fazermos um discurso aberto para catalogarmos essa trajetória, esse perfil, assinalar o registro e dizer sem medo de errar na pretensão de sua pesquisa o que pretende catalogar.

//Qual a importância da arte na sua vida?

Almecides: A Arte é a minha própria vida. Ela é tudo. Sem a Arte não tem graça, não tem vida. Também não vivo dela. Vivo por ela.

//O que mais sente saudades em relação à arte Local e/ou Estadual?

Almecides: Não sinto saudades, pois, nunca houve um verdadeiro olhar para as Artes e a Cultura neste estado, a não ser nestes últimos três anos, quando se começa a estruturar, planejar o desenvolvimento consciente da cultura em suas vertentes, com estímulos ao profissional de trabalhos com qualidade de consumo e formação de platéia. Mas diria que a ansiedade, essa sim, é imensa pela vontade de ver e sentir essa saudade do consumo do nosso produto cultural. Eu sei que ainda vai chegar. Estamos (eu digo: eu, você e tantos operários da arte e da cultura) trabalhando todos os dias para o desenvolvimento e vejo aí, o nosso estado ser uma potência cultural no Coração do Brasil.


 

Por Paulo Egidio
Ator

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